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O Forno de Jales e a linha do Tua

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O Forno de Jales e a linha do Tua

Mensagem por Admin em Ter Ago 05, 2014 3:06 pm


Num dos meus artigos anteriores, eu dizia que a linha do Tua era uma linha obsoleta, inútil e insustentável. Não era um artigo sobre a linha do Tua, apenas a usei numa comparação que ilustra opções no domínio da sustentabilidade. Dizia que, do ponto de vista da sustentabilidade, era mais importante a ligação ferroviária ao porto de Aveiro que a manutenção de linhas que não servem ninguém.

O artigo mereceu uma resposta que pretendia demonstrar a sustentabilidade da linha do Tua. Até aqui, perfeito, é assim que se faz o debate público, com pessoas de diferentes opiniões a apresentar os seus argumentos de forma aberta e livre.

Como não fundamentei o que disse — o artigo não era sobre a linha do Tua —, parece-me justo explicar um pouco mais, limitado pelo espaço disponível e procurando fugir da técnica de atirar factos irrelevantes para a discussão, em vez de construir um argumento sólido.

A linha do Tua foi construída por volta de 1887. Nessa altura, e nos 50 a 60 anos seguintes, a circulação rodoviária era baixa, nomeadamente na região em causa, e a população rural nos concelhos envolvidos era muitíssimo maior do que hoje. Para se ter uma ideia, a percentagem da população das freguesias urbanas de Mirandela passou de pouco mais de 10% nos inícios do século XX, para mais de 40% nos fins dos século XX e a população do concelho, que chegou a ser de mais de 30 mil pessoas, está hoje abaixo dos 25 mil habitantes.

Note-se que a percentagem da população que vivia da produção agrícola e pecuária era largamente superior à que hoje depende desses sectores, e muitíssimo inferior à que hoje vive da segurança social e outro tipo de transferências, sendo a produção da região, em especial da produção que não está concentrada das sedes de concelho, várias vezes superior à que hoje existe (em meados do século XX, a percentagem do concelho com culturas agrícolas andaria acima dos 70%, e actualmente pouco ultrapassa os 10%).

E note-se ainda que o exemplo usado, de Mirandela, não corresponde à situação de grande parte do traçado da linha, mas sim à sua zona mais rica e populosa.

O contexto social e cultural dessas populações é também hoje muito diferente, e hoje deixou de ser normal andar dez ou 15 quilómetros a pé para apanhar um comboio ou ir à feira, até porque o grau de motorização da sociedade é hoje estratosfericamente superior ao que era quando foi desenhada e construída a linha do Tua.

Porque o modelo económico e social era muito diferente, bem como o povoamento, muitas das estações e apeadeiros da linha do Tua, embora tenham o nome da povoação mais próxima, estão muito longe de qualquer lugar habitado, já que o seu traçado se faz ao longo do rio, por escarpas e penhascos, respondendo aos problemas de engenharia da sua época de construção — o comboio era nessa altura uma melhoria brutal de acessibilidade, face às alternativas, que não incluíam ainda o automóvel — e não tanto aos problemas actuais da mobilidade das pessoas.

Ou seja, as características que tornam a linha do Tua lindíssima e, desse ponto de vista, com algum potencial turístico, são exactamente as características que a tornam muito pouco útil para a mobilidade das pessoas, com excepção, eventual, de alguns troços mais humanizados, desde que devidamente integrados num sistema de transporte a pedido que concentre a pouca procura existente.

Há quem argumente que em alguns dias, em algumas ocasiões, as carruagens iam cheias de gente e ainda há pouco tempo algumas excursões não se puderam realizar por falta de espaço nas carruagens.

Digamos que isso é o mesmo que concluir que porque ao almoço de domingo um restaurante está cheio, ele é rentável, esquecendo que serve duas ou três refeições no resto do tempo.

Por isso me lembrei do Forno de Jales, um restaurante excelente na Vreia de Jales, Vila Pouca de Aguiar.

O Toni, dono do restaurante, vive na aldeia e tem a sua exploração. Mas sabe que o mundo mudou, sabe das aldeias desertas, sabe que as pessoas têm carros, sabe que os poucos miúdos que restam vão para a escola, em vez de ir com as cabras.

Por isso, quando cismou em abrir um restaurante, não foi atrás das saudades das velhas vendas que serviam vinho a copo, vendiam massa de cotovelo e distribuíam o correio. Não é que não tenha, aqui e ali, algumas saudades ou, mais precisamente, alguma nostalgia.

Mas a vida é o que é, e portanto fez um restaurante, afamado pela qualidade do que se lá come, mas evitou ter de abri-lo para o entregar às moscas, confiando em enchentes aos almoços de domingo.

Só abre por marcação, só recebe um grupo de cada vez, serve essencialmente o que produz e tem disponível em cada altura, não tem custos fixos (com excepção do capital) e tem uma oferta totalmente alinhada com uma procura muito variável.

Se Toni fosse de se armar em campeão da sustentabilidade, diria que optou por subir na cadeia de valor e fazer o fecho de ciclos típico de uma economia circular, que corta no desperdício, que usa produtos de época e de proximidade, pouco processados e quase sem gastos de armazenamento e conservação, usando a sua enorme flexibilidade para se adaptar totalmente à procura existente, esparsa, é certo, mas com um mercado tão extenso que inclui o Porto.

Infelizmente há quem não aprenda com o Toni e tente encaixar um povoamento disperso e escasso num canal de transporte sem flexibilidade, em vez de perceber a procura que tem pela frente, que oportunidades se abrem na cadeia de valor e de que forma é possível procurar sustentabilidade em modelos de negócio que apontem ao futuro, e não ao passado.

No fundo, estão convencidos de que os instrumentos são mais importantes que as necessidades das pessoas e que as pessoas devem adaptar-se ao comboio, em vez do sistema de transportes, incluindo comboio, se adaptar às pessoas.

Também tenho uma imensa pena em não poder andar mais uma vez na linha do Tua, como fiz muitas vezes há muitos anos, mas não acho justo que sejam os impostos dos outros a pagar a minha nostalgia do paraíso perdido.

HENRIQUE PEREIRA DOS SANTOS 05/08/2014 - 15:02
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